Se nem eu me levo a sério, por que você deveria?
Último ano de faculdade, quando paro e tento entender como me enfiei nessa correria absurda que não tem prazo pra acabar, apenas pra te jogar de um círculo do inferno para o outro, percebo que estou completamente perdido sobre o que vai ser, o que vai acontecer. Nem sei se quero que algo aconteça. Nesse último ano acho que estou tentando compensar por todos os semestres levados de qualquer jeito, sem muitas preocupações com porra alguma. Era legal ser inconseqüente, acho que continua sendo, mas a vida não pára enquanto a gente resolver correr o mundo querendo ser beatnik. Mas quem sabe um dia, não? Esse ano acabou se encobrindo de fábulas misteriosas facilmente escritas por algum soi-disant a escritor que leu Borges demais e gramáticas de menos. Usando o clichê, esse ano mais parece um labirinto. Foda é que até Astherion desistiu disso tudo. Às vezes isso tudo parece uma puta corrida contra o tempo, em outras, parece a maior perda de tempo possível. E sem saber direito o que vai ser e o que vai acontecer, eu vou em frente, rindo da patética tentativa de recuperar todo o tempo que eu já perdi. Mas perdi por quê? Não faz sentido essa coisa de tempo perdido, ou faz, pelo menos desde que Proust se deu ao trabalho de escrever algumas duas mil páginas sobre o maldito tempo perdido. Parece música de legião urbana, que nojo de mim! Não faz muito tempo, li Os detetives selvagens, livro famoso do chileno Roberto Bolaño, provavelmente o único que ficou famoso. Leitura boa, teve gente que falou que era extenso demais, cansativo demais, chato pra caralho, piegas, tentativa frustrada de recuperar idéias babacas dos jovens da década de 60 que ao invés de estudar ouviram Bob Dylan demais e se encharcaram de rios de lsd ou maconha mesmo. Tirando o fato de que eu não achei a tentativa tão frustrada assim, concordo com a última opinião. Cara, sempre que eu paro pra pensar, sempre parece que o passado tinha algo que a gente não tem. Tem gente que chama de idealismo, tem gente que chama de falta de vergonha na cara, eu não sei, mas que desde a década de oitenta todo mundo tem passado longe dessas coisas, tem. O Bolaño morreu com uns cinqüenta, por volta dos anos 2000, eu acho, de alguma forma ele participou da coisa como ela aconteceu. E não foi só ele. Hoje lembrei de como eu era fã do Godard sem ter visto mais de dois filmes dele, mas era a idéia por trás do homem que me animava e continua me animando agora que eu vi os filmes. Não sei por que eu tenho dessas, vontade de largar tudo, correr o mundo, jogar coquetel molotov na polícia porque eu acredito em algo. Tem gente que fala que sou cético demais, mas pensando bem, acho que não sou, só falta algo em que eu realmente queira acreditar. Pro Bauman, o problema da pós-modernidade é que ela marca o fracasso de todas utopias modernas e joga há uma distância de uns bons anos-luz, todas necessidades de longas narrativas que vinham marcando a humanidade. Já parou pra pensar em como isso faz sentido? Não existem mais Burroughs, Kerouacs, Bolaños, Dylans, Rimbauds, Sartres, Godards, Debords e gente assim. E quando eles existem, são tão apagados de alguma forma, que não sobra meio nenhum pra contar história. 68, por exemplo. Mobilizou o mundo inteiro, até o Brasil entrou na dança; claro, tinha o Glauber Rocha e a galerinha do cinema novo que não podia deixar de participar, mas o que eu quero dizer é que mesmo sem internet e com os meios de comunicação ainda comportados de certa forma, todo mundo se mobilizou pra tentar mudar alguma coisa. Não sei quem tava certo e isso não é o que importa. Pelo menos, as pessoas protestavam, brigavam, faziam bagunça. E não era bagunça por bagunça, era Bagunça, pautada por gente que pensava, que lia, que declamava Maiakovski e citava Marx de todas formas possíveis. Não sei se alguém tava certo nisso tudo, mas eu queria ter estado lá, nessas épocas em que se acreditava e se era ingênuo o suficiente pra achar que se podia mudar o mundo. Queria só entender como do último ano da faculdade, eu acabei chegando aqui.

já percebeu como todo mundo virou fã do caio fernando abreu?

Sou um pouco idealista, mas sempre gostei mais das personagens vis. Nunca entendi direito minha atração pelo tipo pessimista, hoje, claro, de alguma forma, eles se tornaram os prediletos de todos, basta especular o fato de Nietzsche ter se tornado um o filósofo mais popular da atualidade. Pergunte pra qualquer um “você conhece nietzsche” e espero um sim de resposta. Dúvido muito que todos que respondem afirmativamente a questão se deram ao trabalho de ao menos abrir o zaratustra ou além do bem e do mal, contudo, todos sabem, nietzsche era um pessimista, um inconformado. Fico imaginando se pessimismo e inconformidade possuem alguma relação. Acho que sim, afinal, todo pessista no fundo guarda alguma esperança que que suas opiniões se frustrem. Todos os grandes gênios, pelo menos, os meus grandes gênios, eram pessimistas. Exemplos. Deixe-me pensar. Gostei do Bergman desde o primeiro filme que vi, quero rever todos, acho que além de Sétimo Selo, meu grande filme favorito do cineasta é Luz de Inverno, um clássico do pessimismo pós-guerra. Tudo bem, o filme é de 63 e a guerra acabou quase vinte anos antes, mas os temas do pós-guerra estão lá. Ameaça nuclear, medo, seres humanos vazios e perdidos, suicídio. Acho que foi o filme do Bergman que mais socou meu estômago. Vou rever no fim de semana. Outro pessimista, esse mais contemporâneo, mas um grande fã de Bergman, Woody Allen. Esse não é tão seco quando o diretor sueco, mas espalha suas crises em meio ao humor. Woody Allen ri de si mesmo e passou bons trinta anos fazendo isso. Quando enveredou pelo drama, pelos temas um pouco mais bergnianos, o resultado foi pungente. Não escolho nenhum dele, acho que gosto de tudo que já vi, com excessão de Sonhos eróticos de uma noite de verão. Poderia citar mais uma infinidade de nomes que figuram entre os maiores cineastas da história e todos eles mergulharam na melancolia e criaram suas versões assustadoras e vazias de um mundo que há muito deixou de buscar alguma salvação. Na literatura, acabei me tornando fã dos romances que dissecavam a alma humana deixando aparente todo vazio e podridão que se pode encontrar dentro de alguém. Gostei de Kafka logo de cara, mas nunca lhe dei a atenção merecida, o que, por sinal, me arrependo. Contudo, como bom cristão que sou, li O Processo. Provavelmente o livro mais angustiante que já toquei. Acabei de me lembrar de Crime e Castigo, bom livro, adaptado e re-adaptado mil e uma vezes para o cinema, mas a redenção do final faz com que o livro se torne um pouco mais esperançoso. Mas em Memórias Do Subsolo, o querido russo, resolveu mostrar o que havia dentro de Raskolnikov, pelo menos é o que os críticos dizem. Independente de estarem certos ou não, Memórias do Subsolo figura ali ao lado de O Processo. O que esperar de um livro que abre com a frase “Sou um homem doente, um homem mau”. Tudo bem, estou me segurando no cerno do pessimismo literário. Mas são fã destes. Mas outros exemplos apenas confirma, basta olhar o lugar onde se encontra a literatura, apesar de que atualmente ando lendo apenas livros que foram escritos há no mínimo dez anos atrás. Por quê? Não sei, é algo que acontece simplesmente. Do jeito que falo, posso até parecer um grande literato ou algo do tipo, mas não é verdade. Tenho lido pouco desde muito tempo. E do pouco que li, sempre procurei aqueles que mostram o lado mais escuro da vida. A prova de que o mundo anda sucumbindo também a estes desejos, é o fato de que de uma hora para outra, Clarice Linspector e Caio Fernando Abreu se tornaram os queridinhos desse país. Ambos, pessoas tristes. Daqueles que doem na alma. Acha que eu tô mentindo? O próprio Abreu diz isso em sua carta ao Zézim. De certa forma, a melancolia sempre moveu a arte e enfim virou moda. Malditos racionalistas que apagaram nossos mitos e nos deixaram ver um mundo em que o cinza é apenas cinza e deus não passa de um acalento para noites frias.

não estou me sentindo muito bem nesse instante. pode ser que passe. pode ser que não. mas cada instante é eterno, por mais rápido nos abandone. e nesse instante queria você comigo.

to aqui tentando lembrar de todos meus filmes prediletos. uma tarefa incrivelmente difícil, por mais que não pareça.  acho que não consigo mais, são tantos filmes, dos melhores aos piores, desde asas do desejo (que tem um dos nomes originais que eu mais gosto, algo como, o céu sob berlim) à cidade dos anjos, de viver a vida a brilho eterno de uma mente sem lembranças. mas ok, vou tentar fazer uma lista, eu sei que provavelmente não vai interessar a ninguém os filmes que eu gosto de assistir, mas o blog é meu, então.

vamos ver… vou começar a lista por the lost boys, filme de vampiros da década de oitenta, ao invés de castelos, bares e motos, sangue no lugar de vinho (apesar de parecer groselha com água demais), músicas legais, com direito a echo and the bunnymen e outras bandinhas que até hoje eu não sei o nome, além de corey haim e corey feldman (se você não sabe quem são eles, go google). foi um dos primeiros filmes que eu cultuei e acho que na época tinha uns oito anos. sim, eu me orgulho disso.

em seguida, acho que posso colocar aqui terminator 2: the judment day, outro filme que marcou minha infância, sabe aqueles filmes que você só poderia assistir na casa da sua prima mais velha, com mais de trinta anos, solteirona e escrota pra caralho, então. sabe-se lá porque eu a curtia, mas o fato é que eu vi alguns filmes graças a ela. lembra de a hora do espanto 2, outro filme de vampiros (o.o), aquele que tem um cara que come insetos e é morto com a barriga multilada, o que faz com que todos os insetos saiam de dentro dele, então, eu vi na casa dela. mas apesar de tudo, o melhor filme que vi por lá foi terminator 2, com o schwarzenegger (tive que procurar no google pra escrever direito) e a linda hamilton. rôbos do futuro, metal líquido, um carinha rebelde será o salvador da espécie, desertos, tiros, cenas de ação, música ruim que era legal na época (vide guns n’ roses) e um nome legal pra caralho, é esse filme tá na lista.

acho que jurassic park deveria fazer parte dessa lista, mas não hoje. também houveram aqueles filmes de psicopatas, como pânico, eu sei o que vocês fizeram no verão passado, e então eu me enveredei por esse caminho e vi coisas bizarras que não deveriam nunca serem mencionadas, como kolobos e coisas assim. filmes ruins, muito ruins, por sinal. se eu tivesse que escolher um, escolheria pânico 2, por motivos bem mais pessoais que qualquer coisa. eu morava em são josé e dia sim, dia não, ia na casa de uns amigos ou nem isso, gente que eu conheci no colégio, e a gente sempre via filmes esdrúxulos de terror, entre muitos, um dos que eu me lembro bem foi pânico 2. nessa época vi uma lista infinita de filmes ruins, incluindo anaconda. no cinema. o engraçado foi que um tempo depois começaram a proibir entrada em filmes por causa de idade e tal. eu sei porque não pude ver o chacal, aquele com o bruce willis e o richard gere.

nessa época também dei espaço a minha verve moça e assisti cidade dos anjos. sendo bem sincero, gostei pra caralho do filme, no quesito diversão e emoção, gostei muito mais desse que o original alemão, mas claro, o filme do wenders tem méritos que hollywood nunca chegaria perto. mas eu adorei esse filme, não dá pra negar, acho que se eu gosto do nicolas cage hoje, cidade dos anjos é um dos grandes culpados. foi por essa época que assisti the nightmare before christmas que não é do tim burton, ok?! é dum tal de henry selick. do burton, sempre gostei de edward scissorhands e os fantasmas se divertem, adoro esses filmes. de verdade.

um tempo depois, já em campo grande, tive minha fase comédias românticas loser guy. é, vi e adorei 10 coisas que eu odeio em você, e mais alguns filmes, mas nenhum deles bateu 10 coisas…, continuo gostando, trilha, filme, tudo, tinha gravado em vhs, acho que peguei no HBO e como eu vi esse filme. vi outras coisas, dogma, primeiro filme do kevin smith que tive notícia, engraçado demais. sempre gostei dessas coisas que brincavam com a religião e nada brinca tanto quanto dogma. vi outras coisas do kevin smith depois, mas dogma continou sendo o predileto, principalmente por ter sido o primeiro. mas chasing amy é um puta filme também e barrados no shopping, claro. aqui em campo grande assisti beleza americana no cinema e acho que é um filme que merece entrar nessa lista, assisti com a minha irmã num dos nossos escassos momentos família. e sim, eu fiquei constrangido com as cenas do cara batendo punheta e dos peitos da menina. mas nada se compara a assistir quem vai ficar com mary? e depois da cena do cara batendo, sua irmã virar pra você e falar que isso faz mal. quando você tem 13 anos, isso é muito chato.

em algum momento desses, curtindo a vida adoidado acabou entrando pra essa lista. e acabei de ter uma epifania e lembrei de tantos clássicos, não lembro do nome da maioria, mas cabem aqui top gang, memphis belle (por causa do meu pai), a sociedade dos poetas mortos e sua pseudo-filosofia de boteco. e claro, um dia de fúria, com o michael douglas. esse é genial. mas então, voltando ao curtindo a vida adoidado, era um dia de chuva, nublado, um desses típicos dias tristes, tinha brigado com a minha mãe e com todo mundo na casa, matei aula e passei o dia inteiro no quarto. quando saí, fui pra sala e liguei a tv, na globo, mal tinha começado o filme e foi a salvação do dia. por isso ele tem um lguar aqui. houveram outros filmes que salvaram o dia, mas nenhum como esse. me lembrei de vários outros filmes aqui, clássicos de sessão da tarde e mais, cinema em casa, como aquele Uma aventura na ilha deserta, com o corey feldman, em que um bando de adolescentes viajam pra algum lugar, mas o avião cai em uma ilha e eles são obrigados a viver por lá e criam uma sociedade até que aparece um cara e fode com tudo, mas eles dão um jeito. década de oitenta teve filmes geniais, isso ninguém pode negar, além dos citados, tem sem licença para dirigir, namorada de aluguel (que tem o cara do grey’s  anathomy), todos eu vi e veria outra vez e outra e outra com todo prazer do mundo. e o fato é que preciso seguir, mas ficaria no terreno dos filmes de sessão da tarde por anos e anos. só pra constar, sempre gostei dos filme com o paul shore, como um maluco no exército, e outro filme que merece estar nessa lista, o homem da califórnia.

o sono bateu aqui e vou citar agora uns filmes que quase mudaram ou mudaram um pouco minha vida nos últimos cinco anos. velvet goldmine, não lembro até hoje porque loquei, mas caralho, que filme. quis ser glam por causa dele, quase comprei bota plataforma, mas é um filme genial. pá pá pá satellite of love pá pá pá. depois trainspotting, que eu gostei de cara, mas nunca li o livro e nunca me fez querer experimentar heroína. ambos com o ewan mcgregor. acabei virando fã dele, vi quase tudo que encontrei, gostei de moulin rouge e também curti por uma vida menos ordinária. acho que foi por essa época que comecei a gostar de filmes mais cults. vi lost in translation da coppola no cinema e kill bill também. já havia assistido à virgens suicídas na época do colégio, anos atrás, gostei de cara. foi engraçado ver gente pagando pau pra encontros e desencontros sendo que metia pau em virgens. enfim, coisas da vida. antes da faculdade vi um filme que até hoje é um dos meus favoritos, chamado garotos incríveis, sobre um professor quarentão que só consegue escrever chapado apesar de não conseguir terminar seu livro de mais de 1000 páginas, uma garota apaixonada por ele, um garoto estranho e eu preciso rever esse filme pra lembrar dos detalhes. mas é um grande filme. acho que alta fidelidade foi assistido por mim nessa época também e merece um lugar na lista. foi legal ver belle & sebastian naquele filme, acho que a música era seymour stein, dias felizes em que eu comprava cds.

nessa época, eu estava entrando na faculdade. uniderp, primeiro ano de comunicação, que eu iria parar antes de completar um semestre. vi os sonhadores e resolvi me meter de vez no cinema mais cabeça. descobri que queria ver godard, mas era foda achar os filmes dele. acabei assistindo nossa música que até hoje é uma incógnita. quem sabe daqui uns cinco anos eu o entenda. vi muita coisa nessa época, sonhos do kurosawa, city lights do chaplin, cinema mudo como nosferatu e outros. acho que nessa época já estudava na ucdb, e já tinha assistido a y tu mama también e kill bill II. na ucdb, um professor me falou sobre coisas legais e nunca ouvidas antes. buñuel. bergman. e por conseqüência, a parte de clássicos. gostei muito de o anjo exterminador e quase todos que vi do bergman. acho que de todos do bergman, o que menos gostei foi morangos silvestres, mas ainda dou uma segunda chance pra ele. em algum momento desses descobri kubric, assisti o iluminado com um amigo e foi legal, a gente desistiu de ver o filme pq tava com medo. dormi vendo 2001 e até hoje não tive coragem de locar de novo. também descobri woody allen e tirando sonhos eróticos de uma noite de verão, todos os outros filmes dele são geniais e merecem lugar na lista.

por causa do professor, eu assisti david lynch. veludo azul e o não menos importante wild at heart. e começa então a fase de filmes que merecem um espaço maior no coração. conheci uma garota (que provavelmente vai ser a única a ler esse texto) e vi filmes e filmes com ela. falei pra ela assistir os sonhadores, virei o cara que citava filme por nome de diretor, revi eternal sunshine of a spotless mind (esse eu vi a primeira vez no cinema, uma ótima história para um outro dia) e me arrependo até hoje de não a ter beijado.  é muito filme, before sunrise, before sunset.  filmes que eu já gostava se tornaram maiores, comecei a gostar de alguns, como mensagem pra você e elizabethtown, e vi muitos outros pela primeira vez. hoje em dia, sinto saudade até de ver zodíaco. sério, quase loquei essa semana.

tem muito filme que ficou de fora dessa lista, muito filme que marcou, muito filme que eu gostei, filmes que eu vi e revi, com os quais eu gastei tempo e fortunas em cinemas, muitos filmes. todos significaram muito e serão revistos com o tempo. um dia eu continuo essa lista, mas que fiquem aqui todos esses pra que eu nunca os esqueça. acho que culpa de eu ser quem eu sou hoje é desses filmes, provavelmente. mas eu não me arrependo.

aos que lêem.

Grito – no fim da noite – que já estou perdido
Casas altas, parecem-me edifícios nebulosos
caminho em direção a alvorada que insiste em se ausentar
Já estou perdido, grito, pouco antes do jantar

Estamos todos servidos, contudo insatisfeitos
Não há aqui lugar algum à que visitar
Tudo está caído, entristecido
e meu pranto é o último a se anunciar nesta noite repleta de estranhos

Somos finalmente os últimos a cruzar as linhas de saída
Sou em que lidera este exército de falidos
Sou eu quem lhes diz, vamos embora e levem consigo tudo que quiserem
Saímos todos. De mãos vazias e corações enegrecidos

– cê tá me ouvindo? cê tá me ouvindo? – foi sua última frase. Ela não teve tempo para respostas, a ligação já havia caido. Ele permaneceu no silêncio amargo por alguns segundos, repensando talvez todos os assuntos, saboreando outra vez cada palavra proferida pela doce voz da garota. A garota era sua namorada há onze meses e três dias, no entanto, não se viam a pelo menos um mês. Ele colocou o telefone no gancho, o barulho seco lhe caiu como um golpe gelado contra seu peito. Caminhou em silêncio por um curto tempo. Vestiu o capuz e tentou encontrar algum sentido no que estava sentindo. Continuou perdido. Colocou os fones e deu play. A primeira música lhe doeu na alma, era uma música calma, logo reconheceu a voz que a cantava. Sentiu frio quando uma brisa gélida percorreu seu corpo. A música acabou e outra se iniciou logo em seguida. Parou no semáforo esperando que os carros parassem logo, queria ir para casa, se esquecer embaixo de uma ducha quente. you look so tired and unhappy. O céu estava vermelho, coisa de dia nublado, e o capuz já estava molhado por causa do sereno. Vermelho para os carros. Atravessou e se pegou perdido em sonhos, imaginando sua garota deitada, pensando nos dois, nos planos que tinham, em todas as coisas que discutiam todas as noites. Ele sentia saudade, uma saudade dilaceradora, algo que o comia por dentro, deixando-o fraco e oco. Doia também, uma dor nunca imaginada antes, sabia que seu coração não passava de um músculo que apenas respondia a impulsos elétricos e, mesmo assim, o sentia queimar como um prédio em chamas. Desatento, chegou em casa antes de perceber. Abriu o portão do edifício e caminhou devagar até a porta. Nada de cartas, nada de pessoas vagando. Odiava o silêncio era obrigado a encarar todas as noites depois de desligar aquele orelhão vermelho na esquina do prédio onde trabalhava. Nenhuma música no universo preenchia aquele vazio. Quando entrou no apartamento, se sentiu sozinho. Queria conversar, mas não podia, não sabia o que dizer, não conseguia colocar em ordem seu pensamentos, nem sentimentos. Foi deixando as roupas pelo caminho enquanto se dirigia ao banheiro. Estava frio ali dentro. Abriu a torneira e esperou até que a fumaça inundasse o box. singing i miss you. Eles tomavam banho juntos nesse banheiro quando ela esteve aqui. Logo completariam um ano juntos, ele sabia que nunca havia se sentindo tão completo quanto com ela. Sentia falta das pequenas coisas mundanas que o faziam perceber que ela estava com ele, que ele não estava sozinho. A cama desarrumada, os fios de cabelo pelo quarto, duas escovas deixadas em cima da pia, o tubo de pasta de dente apertado no meio. Tudo lhe fazia falta. Ao se deitar, percebeu como aquelas coisas eram parte daquilo que ele definia como felicidade. Lembrou da frase de Tom, importante mesmo é o amor, não se pode ser feliz sozinho. Dormiu pensando nisso e sonhou. Pelo menos, durante um pequeno período da noite, se sentiu completo e pode então, ser feliz.

ps: enquanto ele sonhava com ela, acontecia o mesmo há mil quilômetros dali. e assim como ele, ela sorriu e pode então, ser feliz.

when you mess with us.

Outra noite em claro, pensei logo que percebi os primeiros raios de sol no horizonte. Claro que estou sendo retórico nesse ponto, quando o dia amanheceu estava trancafiado em meu quarto lendo revistas antigas e pensando no futuro que começava a se desdobrar à minha frente. O dia amanheceu e eu não dormi, são essas as únicas coisas reais (e que importam) nesta narrativa sobre coisa alguma. Noites em claro tem sido cada vez mais comuns. Lembro de uma, há alguns anos atrás, época em que meu pai ainda era vivo. Era um domingo ou um sábado, mas prefiro acreditar que era domingo. Nesse dia vi os primeiros raios de sol da manhã. Vi também um programa sobre tai chi xuan na cultura. Era pequeno, decidi imitar aqueles movimentos em uma crença cega relacionada a longevidade e a boa saúde. Me senti rídiculo, no entanto, vejo que aquilo foi importante. Se me lembro, é porque encontrei alguma importância naquela manhã. Eu ainda acreditava que pais eram como criaturas mitólogicas, dessas que sobrevivem a tudo, feito Hércules ou Prometeu. Doce engano. Triste engano. Com o tempo, a gente vai vendo que muita coisa que deveria ser, não é. Love fades, they’ll say. Eu não acredito. Amor dura. Love lasts. Distância, morte, nada acaba com ele. Isso eu não sabia quando ainda acreditava em Prometeu. Acho que não gosto de dormir, não gosto de sonhos, contudo, não me dou tão bem com o mundo desperto. Coisa de platonista aborrecido, acho. Pássaros cantam lá fora e eu preciso de um banho. Preciso mais de uma garota que mora longe. Preciso me sentir completo outra vez. Saudade sempre dói mais quando o dia amanhece. Engraçado como a gente mente nessas tentativas de criar arte. Saudade dói o tempo inteiro e não dá pra fugir. Ela te encontra, em qualquer lugar. Outra noite em claro, não sei por quê.

ele chegou antes de todos. sentou-se em uma poltrona próxima ao palco. enquanto esperava, pensou em muitas coisas. contudo, não havia lembrança mais viva que a saudade que sentia. percebeu-se sozinho em meio a desconhecidos que povoavam tudo ao seu redor. queria ela ali, ao seu lado. poderiam discutir a precariedade do local, suas expectativas em relação à peça que veriam. não lhes faltariam assuntos. trocariam beijos e discutiriam qualquer coisa sobre vida. ao se sentirem cansados, poderiam levantar e de mãos dadas caminhar em direção a porta de saída. a peça começou e terminou e ele permaneceu sentado enquanto todos se levantavam e iam embora. a vida tem dessas coisas, pensou, a vida tem dessas coisas.